Movie Review: Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte I

21 nov

“Isso é maior do que você. Sempre foi maior do que você”

Estas são as palavras que Rony fala para Harry quando este último está prestes a sair sozinho para procurar as malfadadas Horcruxes. Sim, toda a trama sempre foi maior do que Harry, muito embora os livros e filmes levem o seu nome, mas a verdade é que este é o primeiro filme em que nós percebemos isso. David Yates, que já tinha dirigido com muita maestria o filme anterior, volta neste novo para mostrar que seu talento não tem nada de acidental. Sim, o último livro é mais negro, tem mais mortes, tudo parece perdido, mas Yates consegue captar o sentimento difícil de tristeza, de perda, que vem tanto pela situação fictícia do mundo criado por Rowling como pelo pesar dos fãs por esta jornada estar chegando ao fim.

Rowling dedicou mais de dez anos à escrever a série e nós dedicamos mais do que isso a lê-la e a acompanha-la ansiosos nas telonas. Harry amadureceu, nós também. E os filmes não ficaram para trás. Em nenhum dos outros filmes se sentia tanto o perigo iminente do domínio de Voldemort, que pode ser facilmente comparado a um governo nazista, que despreza os “sangue-ruins”. Hermione é torturada, mas mais do que sentir sua dor quando ela grita e Rony se debate impotente, sentimos seu absoluto arraso quando vemos as palavras Sangue Ruim gravadas com sangue no seu braço, e as lágrimas no seu rosto cansado. O sofrimento dos personagens é palpável, real, e capaz de segurar uma plateia em silêncio, mesmo que ela já saiba o que vai acontecer. Este é outro desafio de Yates: tornar momentos emocionais em surpresas fortes, mesmo que metade do mundo já saiba o que vai acontecer a cada segundo.

Um bom exemplo deste amadurecimento dos filmes é a belíssima cena entre Harry e Hermione, quando eles dançam em uma tenda logo depois da devastadora partida de Rony. Desajeitado, mas de bom coração, Harry dá a mão à amiga, apenas para lhe mostrar que ele está ali, que eles são amigos e que ainda há esperança enquanto estiverem juntos. Tudo isso é entendido nos sorrisos, nas risadas cobertas por música, na naturalidade da cena, talvez a mais honesta da franquia até agora. Naquele momento, a tristeza é arrasadora. Do tipo que faz o coração se encolher no peito. E isso não é um feito para muitos.

Devido a sábia decisão de dividir este filme em dois, não vemos correria. Não é só explosão, ação, varinhas voando para todos os lados. Não. Embora se trate de um filme de bruxos, este novo Harry Potter é humano, eu diria até trouxa. Mesmo os mais poderosos feiticeiros se sentem assolados por uma emoção muito humana: desespero. Falta de esperança. As cenas que retratam a demorada viagem de Ron, Harry e Hermione pelas florestas, aparatando e desaparatando, são ideais em sua duração, sendo completamente fieis ao livro. O ritmo é constante, e ainda que lento, mantém o espectador bem na ponta do assento.

Em se tratando de arte, o filme não ficou para trás. A cena do Conto dos Três Irmãos é simplesmente maravilhosa, narrada pela doce voz de Emma Watson e trabalhada com uma animação maravilhosa, negra e ao mesmo tempo mágica, exatamente como o filme em que se insere. Sim, o duelo Harry X Voldemort ainda está lá, mas pela primeira vez vemos que o filme não se trata só disso. É uma história sobre pessoas com algo pelo que lutar, pessoas assustadas, mas que ainda encontram coragem para resistir ao desespero. As atuações de Emma Watson e Daniel Radcliffe, normalmente tão fraquinhas, ganharam força neste novo filme, onde são forçados a experimentar emoções mais intensas, e o fazem como gente grande, aliás, como os adultos que se tornaram.

Violência e amor, dois sentimentos tão intensos, estão ainda mais intensos agora, quando vale tudo. Segredos são revelados e confissões são feitas e tudo isso serve para mostrar a aproximação do fim. É impossível descrever a experiência de assistir a um filme, eu sempre achei, mas acredito que este Relíquias da Morte é um filme cheio de sentimento, mais do que muitos filmes que tem como proposta o drama. Ele é dramático em sua realidade, o que só torna tudo muito mais assustador.

Ao sair do cinema, o sentimento é nostalgia. Nostalgia pelos livros que lemos, pelos momentos que vivemos e pela tristeza que sentimos quando tudo acabou. Estamos sendo relembrados de que Harry Potter vai sim, acabar, e embora eu não seja a maior fã do mundo, devo admitir, ainda que relutantemente, que os personagens estarão sempre comigo. E se você acha que todo esse sentimentalismo é exagerado para um filme ou um livro, é porque ainda não descobriu os prazeres enormes da imaginação.

Harry cresceu. A Rowling já teve que se despedir dele quanto colocou o último ponto no último livro. E agora é nossa vez.

2 Respostas to “Movie Review: Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte I”

  1. Grazielle Silva novembro 21, 2010 às 3:07 pm #

    Simplesmente sem comentários.. a resenha ficou MARAAA..

  2. Gi Cano novembro 26, 2010 às 1:54 pm #

    Olá Luiza, adorei sua resenha, expressou tudo o que eu tb senti ao ver o filme.
    Concordo plenamente que é um filme com muito sentimento, muita emoção acima da ação e da aventura, me tocou profundamente e mesmo sendo uma fã recente e um pouco contida (eu não sou mais adolescente, rs) tb vou levá-los comigo pra sempre.

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